terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Sustentabilidade em Eventos



O artigo abaixo foi escrito especialmente para o Boletim de Sustentabilidade SEBRAE, organizado por Angela Miki Saito, Maurício Correia e Fabiana Ferreira, o qual foi publicado em novembro de 2012. Comecei a pesquisar o tema por conta de consultoria que prestamos (eu+Carmen Cavalcanti) à Feira de Empreendedor, no mesmo ano. A experiência foi bastante enriquecedora. Depois disso não paro de observar em cada festa, show ou formatura como esta cadeia produtiva impacta o meio ambiente e como tem potencial para realizar ações positivas positivas para a sociedade, principalmente pela capilaridade que possui, uma vez que abrange grande parte da população.

EVENTOS SUSTENTÁVEIS

O setor de eventos no Brasil tem crescido significativamente nos últimos anos. Em 2011, realizaram-se no país cerca de 320 mil eventos movimentando cerca de 32,7 bilhões de reais, segundo pesquisa realizada pelo FBC&VB em parceria com o SEBRAE. O estudo mostrou também que, depois do sudeste, o estado que mais realiza eventos é o nordeste, com cerca de 60 mil eventos e participação de 13 milhões de pessoas ao ano.

Este impulso do setor na economia, contudo, se contrapõem aos impactos negativos que os eventos ocasionam ao meio ambiente. Se por um lado empregos e renda são gerados, por outro uma grande quantidade de resíduos sólidos é lançada; gases de efeito estufa são emitidos na atmosfera; e bens naturais, água e energia são consumidos em grande escala causando prejuízos ambientais.

Com a preocupação de minimizar estes impactos, entidades e organizações do setor de turismo e meio ambiente em todo mundo tem buscado desenvolver ferramentas e políticas voltadas à sustentabilidade de eventos. Em 2010 a USP - São Carlos publicou o Guia Prático para Organização de Eventos Sustentáveis, contendo 13 tópicos voltados às etapas: pré-evento; evento; e pós-evento. Neste mesmo ano, a Fundação nacional de Qualidade publicou em seus Cadernos de Excelência Requisitos para Responsabilidade Socioambiental Corporativa, aplicáveis também à realização de eventos.

Em agosto de 2012 foi lançado na Inglaterra, sob coordenação geral da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas, a ISO 20121:2012, norma de gestão que visa implementar práticas sustentáveis na organização de eventos de qualquer natureza. A ideia é que o documento possa orientar no planejamento dos eventos da Copa 2014 e o das Olimpíadas de 2016.

Neste sentido, o SEBRAE tem buscado se adequar a esta nova demanda orientando seus eventos à sustentabilidade ambiental, econômica e social, assim como sinalizou sua atuação na RIO +20 e, especificamente no estado de Pernambuco, na Feira do Empreendedor -FE- 2012, realizada no Centro de Convenções, nos dias 17 a 20 de outubro.

Desde o planejamento, passando pela execução e desmonte, a FE 2012 considerou a minimização dos seus impactos ambientais, assim como aspectos de responsabilidade social, segurança e acessibilidade entre outras preocupações que fizeram deste um evento piloto para servir de referência a futuras feiras.

Entre os principais resultados de sustentabilidade da FE 2012, apontam-se: 
  • Redução de 68% do consumo de papel e impressos em relação à FE 2010; 
  • Priorização de inscrições on line; folheto informativo único para a feira, reduzindo panfletagem; 
  • uso de papel reciclado; substituição dos copos descartáveis de plástico por de papel biodegradável;
  •  redução e substituição da matéria prima das  sacolas plásticas por material biodegradável;
  • divulgação do conteúdo das capacitações pelo site; Utilização de equipamentos eletrônicos com selo economizador de energia;
  •  estandes modulados e desmontáveis para reuso; mobiliário a partir de material reciclado ou reuso em alguns estandes;
  • coleta do óleo de fritura do restaurante; substituição dos pratos plásticos descartáveis por pratos em vidro retornáveis;
  •  acessibilidade da feira garantida; sensibilização dos funcionários através de apresentações sobre o tema;
  •  Estande de Sustentabilidade oferecendo palestras, debates e atendimentos na área.

Móveis com materiais reciclados
Parceria com Associação de Catadores
Lixeiras seletivas e bebedouro com copo biodegradável
Detalhe dos copinhos que substituíram os descartáveis 
Antes de começar: ginástica laboral 
                                   Paisagismo vivo e com espécies nativas

Rampas, vaga especial, corrimãos: conforto e segurança para todos.

Stand Sustentabilidade: Valeu mesmo!!!







segunda-feira, 16 de abril de 2012

Ocupe Estelita

O  Ocupe Estelita foi um sucesso! 

O que começou como uma tímida manifestação em redes sociais ganhou divulgação em massa e a presença de inúmeras pessoas que circularam pelos armazéns do Cais das 9h da manhã até o finzinho da tarde deste domingo, 15/04.

#ocupeestelita

Durante este período o que se viu foi muita criatividade, irreverência, arte por todo lado em um ato paz e amor do começo ao fim. Nada de parar o trânsito, nada de agressões,  o que esta luta não violenta mostrou foi que o recifense está cada vez mais consciente de seu papel como cidadão e cada vez mais disposto a discutir o planejamento urbano de sua cidade.


Enquanto alguns manifestantes pintavam os muros e camisetas com o símbolo do movimento, outros se dedicavam a oficinas de origamis. Neste ambiente criativo rolaram também apresentações de malabares, acrobacias em skate e patins, piquenique, banho de piscina para as crianças além de performaces irreverentes como a de três moças que fizeram sucesso com suas fantasias e maneira circense de abordar os carros que passavam.
Para completar o climinha maravilhoso daquela paisagem, vários músicos se apresentaram na tenda improvisada. Esta contribuição musical foi literalmente um show a parte, além da qualidade das bandas, a seleção do DJ foi D+!

O público era bem diversificado, tinha de criança de colo até vovôs compartilhando o mesmo ambiente, apesar dos jovens terem sido mais numerosos. Vi muitos estudantes, colegas da época da faculdade e algumas figurinhas conhecidas da cena Cult do Recife.


Foi muito interessante ver a mobilização das pessoas por uma causa que, se fosse há alguns anos atrás, levantaria pouca gente do sofá... Neste domingo, o Recife deu mais passo em direção a democracia através de uma movimentação espontânea. A apropriação da área, nem que por um dia, transformou uma realidade. Em vez de paredes descascadas, painéis e pinturas; em vez de cheira colas, crianças saudáveis brincando; em vez de barulho de carros, o som dos pássaros da boa música...

Os novos caras pintadas!

Se este não foi um dos objetivos do Ocupe Estelita, para mim funcionou assim... entusiasmo, desejo, reflexões... Como seria a cidade para o cidadão? Como será uma área de construções horizontais, de uma paisagem permeável tomada por enormes arranha céus? Como será um lugar que, mesmo dito abandonado, parece bem mais meu do que na idéia da propriedade privada?
Quando assinei a petição pública tive a chance de conversar com alguns voluntários que organizavam a mesa.  Neste debate, falamos sobre as ações futuras, sobre as contra propostas para o local etc .

Saí de lá era quase umas 5h da tarde certa de que o objetivo do Ocupe Estelita foi alcançado.  As pessoas se posicionaram contra um projeto de alto impacto na cidade. Não houve uma proposta para substituir o projeto “Novo Recife”, mas questionamentos válidos para que entidades possam também se posicionar e junto à sociedade, buscar soluções coerentes entre crescimento econômico, preservação ambiental e valorização sociocultural, ou seja, um novo Recife mais Sustentável.


  
É nosso!

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Projeto Parque da Tamarineira

PROPOSTA VENCEDORA DO 1º LUGAR DO CONCURSO NACIONAL DE PROJETOS PARA IMPLANTAÇÃO DO PARQUE DA TAMARINEIRA 
 Memorial Descritivo

Referência nacional em serviços psiquiátricos desde fins do século XIX, o Hospital Ulisses Pernambucano e seu lote densamente arborizado confundem-se com a história e a paisagem da Zona Norte do Recife. A evolução dos estudos médicos, as exigências da Reforma Psiquiátrica e o interesse de diversos setores da sociedade em apropriar-se daquele espaço levam este conjunto a um momento de transformação: o Parque da Tamarineira, agora desapropriado, tem o compromisso de abrir-se à cidade, desmistificar a loucura e oferecer à população lazer, cultura e educação ambiental, tudo isto convivendo com atividades hospitalares.



A fim de evitar a segregação espacial e garantir comunicação fluida e direta, as intervenções realizadas buscam clarificar a leitura do Parque e das construções históricas mais significativas através da remoção de barreiras e anexos sem qualidade arquitetônica. Dois grandes eixos se estendem desde a entrada principal do Parque até a Matinha, funcionando como largos passeios públicos. Entre estes eixos, um labirinto de vegetação arbustiva faz alusão à complexidade dos mistérios da mente humana e constitui-se num expressivo elemento visual e paisagístico do projeto. Sua estrutura abrigará obras de arte, bancos, espelho d’água e peças interativas que estimularão o caminhar e a descoberta.

Campanha de um Hospital Psiquiátrico - África do Sul


Perspectiva frontal do Parque

Extensos gramados remontam a antiga atmosfera de Sítio, de Pomar Urbano, enquanto playgrounds e equipamentos destinados à prática de exercícios físicos dão dinâmica aos diversos setores do Parque. O edifício do antigo CPTRA foi transformada na Casa do Bem Estar, com atividades para Saúde Integral e a Casa Paroquial, em uma livraria e lanchonete.


Para o setor hospitalar, a solução proposta foi a criação de um "Corredor da Saúde" voltado aos enfermos do CPTRA, da Emergência Psiquiátrica do Hospital Ulysses Pernambucano e ao Hospital Helena Moura. Este núcleo voltado à Av. Cônego Barata compreendendo três novos edifícios. O 1º e o 2º são intervenções em ruínas existentes onde funcionará a nova emergência e o 3º servirá ao CPTRA, com dois pavimentos e um estacionamento semi-enterrado com capacidade para 124 vagas para atender ao Parque, apesar de não possuir ligação direta ao Hospital.

Perfil dos edifícios históricos e novo conjunto hospitalar à esquerda

O principal conjunto arquitetônico, obra do arquiteto francês Victor Fournié, construída entre 1874 e 1883, possui 4 blocos organizados em cruz com espaçamentos em suas extremidades. Esses blocos serão restaurados e abrigarão os seguintes equipamentos:

- Museu da Tamarineira, que exibirá ao público a história do antigo Hospital, além de peças da Santa Casa de Misericórdia;
- Museu Sensorial de Arte Contemporânea, que abrigará exposições relativas às temáticas entre arte, corpo e mente;
- Centro de Convivência de Saúde Mental, espaço previsto no plano de Reforma Psiquiátrica;
- Salas para atividades vinculadas às Universidades;
- Cinemateca;  
- Biblioteca;
- Auditório (175 pessoas); e
- Pavilhão da Sustentabilidade.

Este último e novo edifício, construído nas proporções de seu traçado original, além de abrigar exposições sobre sustentabilidade e meio ambiente, será um exemplo prático de construção sustentável, tendo sido planejado com base na metodologia de avaliação ambiental de edifícios LEED - Leadership Environmental Energy Design.




Exemplo de fechamento móvel em painéis de bambu

Pátio Central

A sustentabilidade foi um aspecto que permeou este projeto como um todo. A área posterior, chamada Matinha, é um exemplar valioso na cidade onde a biodiversidade se manteve preservada durante décadas. Dessa forma, a área será palco de um programa de educação ambiental, onde haverá uma passarela de madeira que conduz ao observatório elevado, o qual servirá também como apoio às atividades educativas. Preservando as árvores existentes, foram criadas trilhas, estrutura para arborismo, sementeira e composteira no local para tratamento dos próprios resíduos.

Estrutura de passeio acima do solo natural - preservação da Matinha
Foi observado em visitas e estudos da área que o Sítio da Tamarineira possui uma característica que não se pode ocultar - a presença de um corpo dágua e de áreas alagadiças, assim como foi no passado.

“O sítio escolhido chamava-se Tamarineira, no Lugar Matinha, freguesia da Graça (...). Patrimônio dos órfãos da Santa Casa, ocupava uma área arborizada em parte e em parte alagada”. Oração do psiquiatra, Ulysses Pernambucano
  Área alagada após chuvas de julho em 2011
Canal sub-dimensionado atravessa o sítio, ora embutido, ora aparente
O que em princípio pareceu ser um problema tornou-se um dos partidos do projeto uma vez que a proposta foi a reabertura do canal hoje embutido, chamado Jacarezinho, através de sua requalificação, despoluição de suas águas e redesenho da paisagem conforme seu traçado original, ou seja, em solo natural e vegetado.

Exemplo bem sucedido de revitalização de um canal urbano em Seul
Ao longo do “Riacho do Jacarezinho” um passeio, acessível e em desenho universal, interliga os acessos da Av. Rosa e Silva ao acesso da Av. Norte intercalado por pérgolas de madeira e bambu. O muro que limita o Parque neste trecho recebeu tratamento através de jardins verticais e painéis para instalações artísticas nas quais seriam registradas as conquistas socioambientais da população através dos tempos. Neste “Corredor da Cidadania” a conquista da Tamarineira merece especial destaque, uma vez que se trata de um dos mais importantes marcos históricos do avanço da consciencia socioambiental no Recife.
Abraço à Tamarineira em manifesto contra a construção do shopping em 2010 
Sob o aspecto urbanístico, o Parque Público da Tamarineira deverá fazer parte da rota de integração de parques, prevendo a ampliação da rede pública de parques e sua conexão com o Plano de Parques Municipal e o Projeto Capibaribe Melhor. Sugere-se a criação de rotas lindeiras à margem norte do Capibaribe, associadas e compartilhadas a modais não motorizados, o que inclui a melhoria da circulação de pe­destres e o incentivo ao uso de bicicletas como equipamento de deslocamento. O foco principal desta integração é promover melhoria significativa na qualidade de vida e estimular a apro­priação do espaço público pela população recifense.

 


Este texto foi escrito pelos integrantes da equipe autora do projeto vencedor do concurso:
Carmen Cavalcanti, Celso Vinícius, Christoph Jung, Luciana Raposo, Manuela Maia e Mariana Ribas






Implantação do Parque

A Tamarineira e o Futuro da Cidade - Parte II

Neste sábado, a caminho do Parque Dona Lindu para receber o prêmio de 1º lugar do Concurso Nacional de Projeto para implantação do Parque da Tamarineira, emoção, ansiedade e euforia tomavam conta de mim, nem dirigir conseguia, falar...muito mal... tudo passava na minha cabeça ao mesmo tempo após o telefonema de Manu:  “Lu, vem logo para cá, o nosso painel está bem na frente, eu acho que a gente vai ganha...” Ai ai...coração a mil e ainda a caminho recebo a confirmação: “É 1º lugar!!! É 1º lugar!!!” Haaaaaaaaaaaaaaaaa!!! (Gritos)
Neste loooooongo caminho até BV voltei no tempo e me senti novamente naquela primeira reunião com os Amigos da Tamarineira, em março de 2010 quando eu e Carmen adentramos pela primeira vez aqueles obscuros portões... Mal sabíamos que um novo destino para aquela área estava ali se desenhando... e para nós também.
Saí de lá tão surpresa e sensibilizada com tudo o que vi e ouvi, que na mesma noite escrevi um email para alguns amigos como forma de desabafo (ver pôster anterior). Ocorreu, contudo que o artigo ganhou repercussão em massa tendo sido publicado em blogs e mídias sociais.
Por  acidente, ou destino, me tornei ativista do movimento, tendo participado de reuniões, audiência pública e organizado eventos e campanhas contra a construção do shopping e a favor de um parque público que não excluísse as atividades de saúde.

A cada dia, inúmeros emails chegavam a minha caixa. A maioria para apoiar o movimento, outros para criticar, acusar e dizer que tudo aquilo era só perda de tempo. Enfim, como tempo era meu, o empreguei como bem entendi e não me arrependo. Ver a cidade se mobilizando, discutindo, se posicionando já era uma conquista. Foi quando comecei a acreditar de fato em uma mudança de postura
No dia 5 de junho os “Amigos da Tamarineira” organizaram um evento no local com o objetivo de reforçar a causa em plena Semana do Meio Ambiente. Na véspera deste dia, contudo, em evento aberto ao público, no Parque da jaqueira o Prefeito do Recife anunciou, em ato histórico, a desapropriação da área e o lançamento de um concurso público para a construção de um parque com base no desejo da sociedade #oDonaLinduEnsina!

No meio daquela gritaria, só ouvia a voz de Pat Vasconcellos em resposta ao anúncio: “ E quem vai ganhar é Luciana Raposo!!!” hehhehehehehe É claro que estávamos todos muito felizes e que com certeza seríamos candidatos ;) Para fechar com chave de ouro, o que era mais um evento de reação, tornou-se uma grande confraternização. A idéia era lermos um manifesto de cobrança ao poder público que se mantinha ausente até então, mas em vez de reinvidicações, estávamos todos comemorando a conquista da cidade harmoniosamente ao som da linda música dos Meninos do Coque. Foi um momento histórico e de muita emoção. O recifense acostumado a apenas criticar e desacreditar de nossas causas comuns teve naquela ocasião um bom exemplo para resgatar seus valores como cidadão.
By ICONO DESIGN

Apenas um ano depois o concurso foi relançado. E em  junho de 2011, enfim, abriram as inscrições. Aquela altura já tínhamos formado uma equipe de primeira linha. Além de mim e Carmen, minha sócia e também gestora ambiental e Manu, nossa parceira e também estudiosa da arquitetura sustentável, juntaram-se a nós Mariana Ribas, aqruieta urbanista, minha chapa desde o tempo da FAUPE, Celso Vinícius, um jovem arquiteto experto em concursos e seu amigo Chris, um paisagista alemão tão competente o quanto. Além dos arquitetos também tivemos várias contribuições de profissionais de áreas distintas, uma vez que a abordagem do trabalho foi multidisciplinar.

Começamos com reuniões semanais lá no escritório e quanto mais se aproximava o prazo, mais intensos ficavam nossos encontros. Aquela altura eu já tinha arengado um monte com Chris, Mari Ribas quase surta para terminar a correção de sua dissertação paralelamente ao concurso, enquanto Celso e Manu  permaneciam centrados como sempre...  E haja desenho, haja debates, pesquisas, visitas, idéias que vão, idéias que voltam... “Essa Tamarineira ainda vai me enlouquecerrrrrrrrrr”...



Na última madrugada, Chris, Mari e Celso amanheceram  trabalhando na casa de Celso. Às 8h estávamos na gráfica para plotar as benditas pranchas e só às 12h56 elas chegaram ao IAB. Yu-huuuuuuuuuuuuu!!! Dever cumprido, agora é só esperar...
Ai, ai, quem disse... fechava os olhos e ainda me via lá dentro. Emendei o turno e ainda fui dar aula até às 10 da noite...Zzzzzzzzzzzzzzz
Noooooooooossa foi uma experiência muito intensa mesmo! Não sei sobre os resultados e idéias dos colegas, mas creio que ninguém viveu a Tamarineira como nós...assim tão no limiar da loucura hehehee :)
Mergulhar na história da Tamarineira foi como percorrer a área através de décadas descobrindo o sentido de cada tijolo que a compõe, de cada árvore que lá está. O resgate de uma memória tão peculiar, resguardada por grades e portões, se desvendou á nossa frente durante este período sob o desafio de captar tais registros e transformá-los em unidade visual e soluções práticas.




Diante deste contexto, a nossa proposta de projeto foi elaborada com base em necessidades reais e no desejo do cidadão recifense quanto ao destino do espaço proposto. Sendo assim, foram trabalhadas soluções em nível do espaço urbano e sua conectividade, do paisagismo e da relação da população com a ecologia urbana e da arquitetura como veículo para melhoria da qualidade de vida de uma cidade. (ver post  memorial proposta)

Compilando diversas disciplinas, necessidades e administrando conflitos, esta proposta reflete o que o Recife deseja para o futuro de suas gerações: respeito, consciência, cuidado. Este é o papel da arquitetura, do paisagismo e urbanismo: melhorar a qualidade de vida das pessoas.


Trabalhar a 12 mãos não foi fácil, mas não posso imaginar este projeto com o mesmo resultado se a equipe não tivesse sido exatamente do jeito que foi. Todos foram imprescindíveis! Agradeço de coração aos meus colegas por suas contribuições e empenho. Agradeço a todos os que acreditaram em nós desde o começo. À minha filhinha Luna porque há tempos prometi este Parque a ela (como símbolo às futuras gerações) e à minha mãe, Fátima Raposo, que sempre me impulsionou a ser melhor, a lutar, a acreditar... mesmo quando todo mundo achava impossível ... Continuamos e Vencemos!

O melhor de tudo é que esta é uma conquista legítima e merecida e não se trata de uma vitória apenas de nossa equipe, mas de uma cidade inteira! Depois da Tomada da Tamarineira, percebo um certo empoderamento do recifense como cidadão.  Acho que este sentimento não é só meu, pois observei várias matérias que saíram na mídia sobre o avanço da consciência ecológica em nossa cidade. Sabemos que agora será uma nova etapa e que nossa luta não pára por aqui.
Muitas águas vão rolar, mas uma coisa para mim já é certa: depois da Tamarineira, esta cidade não será mais a mesma.
" O que for a profundeza do teu ser, Assim será teu desejo.

O que for o teu Desejo, Assim será tua Vontade.

O que for a tua Vontade, Assim serão teus Atos.

O que forem teus Atos, Assim será teu DESTINO."

(B. Upanishad IV, 4.5)





Manu, celso, Mari, Eu e Carmen ... e abaixo: Christoph Jung


segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A Tamarineira e o Futuro da Cidade

Artigo escrito em março de 2010.


Semana passada tive uma prova de paciência e equilíbrio zen ao atravessar a nossa cidade de carro quando voltava, esbaforida, do shopping Guararapes até minha casa no Rosarinho. Neste percurso de quase 2h, vim conversando com Carmen sobre o caos do trânsito, o desperdício de tempo, dinheiro, poluição e da possibilidade de um dia eu precisar me mudar daqui para poder ter o direito de ir e vir sem estresse, porque do jeito que a coisa vai, sinceramente, eu acho que em 5 ou 10 anos, o Recife vai parar.
Após a maratona, fomos para a reunião do movimento Amigos da Tamarineira e fiquei passadaaaaaaaaaaaaa com o que vi e ouvi. Primeiro porque descobri que morei mais de 10 anos na rua do Hospital e nunca soube bem o que era , como funcionava e como era por dentro. Cheguei lá por um caminho entre árvores, estacionei em terra batida e me dirigi ao auditório passando por um complexo de belíssimos edifícios em estilo eclético cercado por imensas árvores e um verdadeiro bosque ao fundo que nem dava para ouvir o barulho dos carros na avenida, no máximo alguns insetos e a cantoria de um enfermo que vinha lá do 1° andar. Além das instalações, surpreendente foram os depoimentos de alguns dos mais de 50 participantes do encontro, isso porque mesmo me considerando simpatizante do movimento, não fazia idéia de como as coisas estavam realmente acontecendo. E aí me perguntei: "Como pode numa sociedade tão globalizada e cibernética ainda estarmos tão sem noção dos fatos que acontecem em baixo do nosso nariz?"
Como todos sabem, o Hospital da Tamarineira está, de novo, prestes a virar um shopping. A propósito, "shopping ecológico" (dá para conceber???  Veja no link o quanto: http://acertodecontas.blog.br/atualidades/supostas-imagens-do-shopping-tamarineira/ <http://acertodecontas.blog.br/atualidades/supostas-imagens-do-shopping-tamarineira/> ) Enfim, a polêmica é longa e os relatos, contundentes.  As informações obtidas nesta reunião são importantíssimas, mas é claro que não estão saindo na mídia formal, apenas em alguns blogs e fóruns de discussão na Internet promovidos pela sociedade civil.
Confesso que minha participação como cidadã recifense é muito aquém do que eu gostaria. Passei a faculdade de arquitetura inteira sonhando e planejando uma cidade melhor, mais saudável, igualitária... Nem por isso fui capaz de impedir a derrubada de uma única árvore que sombreava a parada de ônibus da Av Norte, onde eu pegava meu busão na ocasião da construção de um posto de gasolina. Desde então, tenho assistido às transformações desta cidade, a especulação imobiliária e algumas decisões equivocadas do setor público que vêm comprometendo o nosso patrimônio cultural, arquitetônico e ambiental. Sentindo-me  minúscula e impotente para frear estes processos, passei a ter uma atitude mais passiva diante destes jogos de interesses.
Foi neste sentimento, que me chamou a atenção o depoimento de um líder comunitário que estava presente na reunião. Ele mora na Bomba do Hemetério e se abalou para até a Tamarineira, certamente de ônibus, para dar a sua contribuição enquanto os nossos vizinhos nem sequer desceram dos seus prédios para ir andando.  Este rapaz não mora no bairro Tamarineira, mas ele mora no Recife, este é o pensamento. Talvez ele não tenha condições de freqüentar o shopping, mas não é isso que o motiva. Falou da importância e do poder e uma mobilização popular e repetiu as palavras de um político que conheceu: " Não tememos a classe média como às comunidades organizadas. A classe  média  reclama, mas não levanta sua bunda do sofá".
Por isso meus amigos, eu os convido a nos levantarmos do sofá no dia 13 de março, às 9h para a mobilização contra a venda da Tamarineira e em prol de novos projetos para manter o local realmente preservado, público e coletivo.
Quero lembrar que essa não é uma questão de partido político, é transpartidária. Não é uma questão de polêmica, mas de cumprimento da legislação e do direito do cidadão à qualidade de vida. Não é uma questão de religião, mas de ética. Não é uma questão de modismo, mas de sobrevivência. Não importa dizer apenas que é contra ou a favor do empreendimento, é preciso conhecer a realidade que existe lá, como também ouvir e opinar sobre novas propostas.
Precisamos nos mobilizar e usando as ferramentas que nos cabem e no momento, uma boa é conferir o evento deste sábado, marcar presença e fazer barulho, se precisar... O que não pode é continuarmos sentados no sofá permitindo que se atropele (e manipule) a opinião pública para construir torres gêmeas dentro d'água, bolas de concreto no lugar de parque público em atropelo aos desejos dos moradores e contribuintes do Recife.
Que cada um utilize de suas possibilidades para demonstrar resistência, como estão fazendo os Amigos da Tamarineira e outros grupos manisfestos em  pequenas reuniões e através de blogs e twitrs, usando o Youtube, como  fez a moradora do bairro Lucia Passos, no blog Acerto de Contas que filmou, fotografou e publicou uma denúncia de depósito de entulhos na mata da Tamarineira, no link: http://acertodecontas.blog.br/meio-ambiente/leitora-denuncia-que-metralhas-esto-sendo-depositadas-na-mata-da-tamarineira/ <http://acertodecontas.blog.br/meio-ambiente/leitora-denuncia-que-metralhas-esto-sendo-depositadas-na-mata-da-tamarineira/>

Outra contribuição significativa surgiu dos estudantes de arquitetura que, em oposição ao projeto de Niemeyer para o Parque Dona Lindu, projetaram propostas alternativas com base nos critérios que a sociedade desejava, fizeram  painéis e maquetes de parques maravilhosos, só para agitar os moradores para o que poderia ter sido o Parque, e certamente nos custaria bem menos do que os cerca de  R$30 milhões que se gastou no empreendimento. No caso da Tamarineira, em que a negociação ainda está em trâmite, os impactos de uma iniciativa como esta seriam ainda maiores. Sendo assim, por que não envolver os estudantes para propor projetos alternativos de um parque,  apresentar a sociedade, abrir a discussão???

Enfim, ferramentas temos muitas, mas se você está pensando o mesmo que Renan, um amigo que acabou de entrar na minha sala para dizer que pode até ir no sábado, mas sabe que vão construir do mesmo jeito e a gente ainda vai se encontrar lá para tomar sorvete, eu lhes digo que pode até ser, mas que antes disso farei o possível para complicar a vida dessa galera. E tem mais, quem não quiser ir pela causa, que vá para conhecer as instalações e as árvores lindas, centenárias que existem lá, inclusive o Tamarindeiro gigante, que deu nome ao bairro Tamarineira, antes que se transforme num "ecológico" bloco de concreto.


Luciana Raposo
Arquiteta e gestora ambiental
lu@lucianaraposo.arq.br